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fev

A dor da perda. O que fazer quando seu Pet morre?

Nunca queremos que esse dia chegue, mas infelizmente os cães e gatos têm vidas curtas e morrem antes de nós. Só quem já perdeu um peludo sabe o quão doloroso pode ser.

Beverly & Pack/Creative Commons

Beverly & Pack/Creative Commons

Além da dor, há muitas dúvidas que envolvem a morte, como o que fazer com o corpo, como contar para as crianças, o que fazer com as coisinhas do pequeno, como lidar com os animais que ficaram e como lidar com a dor da perda.

Gostaria de explicar todos esses quesitos de uma forma jornalística e imparcial, mas não será possível. No dia 26/12/15, o meu companheiro de quatro patas morreu. Aos 15 anos de idade, Stitch não aguentou ao nono edema pulmonar e foi para o céu dos animais.

Por conta dessa perda, passei por um processo, que agora posso compartilhar e ajudar outras pessoas a passar por essa difícil situação.

Processos necessários para lidar com o luto

Georgie Pauwels/Creative Commons

Georgie Pauwels/Creative Commons

Visitas na UTI. Se seu cãozinho/gatinho ficar mal e for internado, vá visita-lo na UTI e leve filho ou parentes mais próximos ao pequeno. É importante fazer essa “despedida”. Eu conversei com o Stitch, como se ele fosse uma pessoa. Disse que não queria que ele sofresse, e permitia a ida dele. Pode parecer chocante ver o animal naquele estado, mas é importante na hora de lidar com a perda.

Eutanásia humanizada. Se seu peludo está sofrendo muito, alguns veterinários podem indicar a eutanásia. O ideal é que ela seja feita na sua casa, com todos os familiares em volta (incluindo outros animais), na caminha ou local de conforto de vocês. Pode parecer mórbido, mas auxilia muito quando ele se for.

Velório. Existe velório de animais, assim como de humanos. No caso do Stitch, a veterinária preparou o corpo e deixou numa salinha especial para que eu e minha mãe pudéssemos nos despedir. Foi extremamente importante passar por isso. Realmente nos despedimos, agradecemos, choramos e ficamos com as lembranças boas daquele serzinho peludo. É comum não acreditarmos que o bichinho morreu e sentirmos que ele vai voltar a qualquer momento. Ver o corpinho dele já sem vida, ajuda a concretizar a morte. É importante, inclusive, que os outros animais da casa possam ver o corpinho do animal falecido.

Caixa de recordação. A primeira coisa que quis fazer foi juntar todas as coisinhas do Stitch em uma caixa. Algumas coisas consegui doar, mas outras ainda estão na caixa. É importante manter recordações. O tamanho da caixa pode diminuir, mas sempre haverá um pertence dele para quando a saudade bater.

Deixe que falem! É comum que todos tenham uma fórmula mágica para lidar com a perda. Conselhos não faltam nessas horas. O mais importante é fazer o que seu coração mandar! Chore mesmo! Pegue as fotos e filminhos dele, sente em um canto e se acabe de chorar! Assista filmes que lembrem ele e chore! Não tenha vergonha. Ajuda a lidar com a perda. Eu, por exemplo, assisti Lilo & Stitch. Muitos foram contra, mas foi necessário para mim.

Conte com os amigos. Nos primeiros dias, tive muita dificuldade de voltar para casa. Até hoje é difícil entrar e sair do apartamento. Parece que ele ainda virá na porta. Para fugir dessa angústia, nos primeiros dias dormi na casa de amigos. Eles não me davam conselhos estapafúrdios e só tocavam no assunto morte, se eu permitisse. Dividir a dor, ajuda a lidar com ela. Sofrer sozinho, dói mais.

O que fazer com o corpo?

Randi Deuro/Creative Commons

Randi Deuro/Creative Commons

Essa é uma das grandes dúvidas de todos. Alguns enterram no quintal, outros jogam no lixo. Mas o que é o certo?

Você tem duas opções: enviar para o CCZ (Centro de Controle de Zoonose) da prefeitura, para fazer uma incineração (cremação) coletiva ou contratar um crematório particular.

Se seu pequeno morreu em casa, você pode entrar em contato com uma Clínica Veterinária, onde os procedimentos serão adequados para manter a saúde pública . Se não for possível ir a uma Clínica Veterinária, entre em contato diretamente com o Centro de Zoonoses (CCZ) da cidade. Esse é departamento da Prefeitura responsável por recolher os amiguinhos após sua partida. Nunca deixe o corpo em caçambas ou lixo comum.

Também não é recomendável enterrar o corpinho no quintal de casa. “Quando enterramos um animalzinho, a decomposição do corpo libera chorume, que é um líquido escuro resultante da decomposição de corpos. Este líquido é rico em bactérias, salmonela e duas substâncias tóxicas: putrescina e cadaverina, que contaminam o solo, lençol freático e poços artesianos. Além de ser prejudicial ao meio ambiente e à saúde pública” alerta a médica veterinária sanitarista Jany Gil.

Tenha calma na hora de decidir o destino no pequeno. Não permita que ninguém decida por você. Ao escolher enviar o corpo ao CCZ, você não terá custo. O próprio hospital chama esse serviço, sem você se preocupar com nada. A cremação do corpinho do seu peludo será feita com os de outros animais. Você não irá participar e não receberá as cinzas.

Como os pets são cada vez mais membros da família, há um serviço especializado em cremação dos peludos. Já tinha ouvido falar do Cemitério e Crematório de Animais e do Pet Memorial. O próprio hospital que o Stitch morreu, já passou o contato do Pet Memorial. Localizado no Imigrantes, eles cuidam de tudo: velório, cremação, entrega da urna com as cinzas e até atendimento psicológico.

Fiquei impressionada como todos os atendentes estão preparados para lidar com a morte. Muito atenciosos e compreensivos com a importância do animal, fui atendida prontamente. Um vendedor veio até a minha casa para que eu escolhesse a urna (são muitas opções. Uma mais linda que a outra). Não quis fazer o velório com eles, pois já havia feito no hospital. Mas o principal foi o acompanhamento psicológico.

Como contar para as crianças?

David Shankbone/Creative Commons

David Shankbone/Creative Commons

Esqueça as frases “ele dormiu para sempre”, “virou estrelinha”, “foi morar com papai do céu” ou “fugiu”. A psicóloga infantil Thais Azevedo explica que a morte de um animal pode ser um momento especial para explicar o conceito de morte. Perder essa oportunidade, pode dificultar lidar com o assunto na fase adulta. A partir dos 4 anos, a criança já consegue entender o conceito da morte.

O processo pode ser facilitado se a criança visitar o animal na UTI e for ao enterro. “Não podemos forçar a criança. Devemos explicar o que é uma UTI e um enterro para então perguntar se ela quer ir. Se não quiser, deve ser respeitada” ensina Thais.

A criança pode parecer lidar com o luto com muita maturidade e tentar consolar os pais, ao vê-los tristes. Mas ela também está triste pela morte do amiguinho. Assistir filmes fazer brincadeiras que remetam ao assunto ou desenhar podem ajudar a externalizar essa dor. Não pense que ela não se importa com a perda pelo simples fato de continuar a vida normalmente. Ela pode estar sofrendo tanto quanto você. É importante reconhecer a dor que ela sente.

Estar disponível para escutar as histórias e responder aos infindáveis questionamentos, é de extrema importância. Se não souber a resposta, pergunte a opinião da criança ou busquem, juntos, as possíveis respostas. Não hesite em pedir ajuda de um profissional.

Minha experiência

Foto: Luiza Cervenka

Foto: Luiza Cervenka

Ao conversar com a psicóloga do Pet Memorial, Joelma Ruiz, ela sugeriu que eu contasse um pouquinho do meu processo de luto, para poder ajudar outras pessoas. Ela me contou que muitos acham que luto de bicho é besteira, mas é tão intenso quanto de um parente próximo.

Apesar dele ter morrido, o processo de morte foi uma benção. Ele estava no meu colo, anestesiado, quando começou a passar mal. Fiquei com ele até o último minuto. Não presenciei o exato momento que ele se foi, mas pude ficar com ele até sentir o corpinho ficar gelado. Juro que foi importante passar por tudo isso.

Ao chegar em casa, postei nas minhas redes sociais o ocorrido. Foi de extrema importância receber todas aquelas mensagens de apoio. Mas ainda assim, parecia que eu iria busca-lo no hospital, vivo, no dia seguinte, como havia feito por várias vezes. O dia seguinte chegou e a ficha começou a cair. Evitava falar sobre o assunto, mas quando olhava para a sala e não via sua caminha, meu coração apertava.

Percebi que não estava conseguindo me concentrar. Meu foco parecia ter ido embora com o Stitch. Cheguei ao ponto de ir a um lugar de carro e voltar a pé. No meio do caminho que lembrei que tinha ido de carro. Dirigir era perigoso. Não tinha reflexos rápidos. Parecia anestesiada. Joelma disse que tudo isso era normal do luto, que não precisava me preocupar. E me alertou: “não se sinta louca se ouvir as patinhas dele no assoalho ou se achar que viu ele pela casa”. Eu achei essa possibilidade meio que absurda, mas não disse nada.

Eis que na quarta-feira, cinco dias após a morte do Stitch, estou sentada no computador escrevendo, e vejo duas orelhas gigantes no batente da porta. Isso era normal quando ele estava vivo e vinha me ver no quarto. Na hora já lembrei do que a Joelma disse e me acalmei. Nossa mente prega muitas peças.

Não consegui me desfazer ainda de muitas coisas do Stitch, mas está tudo naquela caixa de lembranças. Quando a dor aperta, abro a caixa e olho todas as roupinhas, bandanas e pertences.

Foto: Luiza Cervenka

Foto: Luiza Cervenka

Todos me perguntam se pegarei outro cachorro. A resposta é sempre “agora não”. Tentei pegar uma cachorrinha como lar temporário. Foi a pior besteira. Qualquer comportamento inadequado, eu pensava “o Stitch não fazia isso. Ele era o cão perfeito para mim”. Tinha horas que eu queria abraça-la, como fazia com o Stitch, mas ela não gostava. Isso me machucava muito. Definitivamente, não devo pegar outro animal agora. Eu e ele iríamos sofrer por expectativas divergentes.

Tentei viajar para espairecer. Durante a viagem, fiquei bem melhor. Mas quando cheguei em casa, toda aquela angústia e tristeza voltou com mais força. Até pensei em mudar de casa, mas a Joelma disse que o local muda, mas a ausência permanece.

Tudo que eu imaginava fazer ou criticava que as outras pessoas faziam, caíram por terra. Disse que seria lar temporário. Não deu certo. Disse que jamais faria um “altar” para um animal. Ao receber as cinzas, Joelma sugeriu que eu escolhesse um local especial para deixar a urna. Esse local já estava pronto: uma prateleira com um porta-retrato e meus livros religiosos.

Foto: Luiza Cervenka

Foto: Luiza Cervenka

Imaginava que iria receber a urna e já iria jogar as cinzas no jardim. Joelma mais uma vez me orientou: “siga seu coração. Ele saberá o momento mais adequado”. Esse momento ainda não chegou.

Ainda sinto a ausência do pequeno orelhudo. Chegar em casa e não ter aquela cabecinha torta com a linguinha de fora para me receber, dói profundamente. Então perguntei para Joelma: “Quando isso vai passar? Quanto tempo dura esse luto?”. Com todo carinho, ela me respondeu: “Luiza, o Stitch sempre estará na sua lembrança. Aos poucos a dor irá passar, mas sua ausência é eterna. Você pode chegar daqui a dez anos na sua casa e chorar como se ele tivesse morrido há uma semana. Não se cobre tanto”.

Passar por qualquer perda é difícil, ainda mais quando é de alguém que amamos tanto. Stitch se foi, como tantos outros animais que já partiram. Ficam as lembranças e a gratidão pelos momentos vividos.